O incrível coração que sumiu | Crônica

23 de janeiro de 2016
Foi bem no meio da noite. Começou com uma dor intensa, creio ter acordado por causa dela. Na sequência, uma falta de ar... Eu tremia, suava e forçava as minhas mãos contra o peito. Fui sentindo um enjoo, um engasgo, meus olhos escureceram por alguns segundos. Dor, muita dor. Quando eu parecia não aguentar mais, dei à luz a meu próprio coração. Detalhe: pela boca. Enquanto eu ainda tossia e tentava recuperar o fôlego, ele se explicava: "Desculpa, mas esse era o caminho mais curto, acredite".

Ao sentar na cama, me senti muito leve. A gente não tem ideia do peso de um coração, e lá estava eu, cara a cara com o meu. Então, ele começou: "Querida, estou des-tru-í-do. Preciso de férias, estou cansado de amar e não ser amado de volta". Realmente, aquele não fora um bom ano, amorosamente falando, mas argumentei. "Quer dizer que vou andar por aí sem coração? E você, aonde vai?", confrontei-o. Ele tinha um plano. "Sabe aquele porta-cookies lá na cozinha? Vou ficar dentro dele, mais precisamente em baixo da sua cama. Preciso de paz".


Minutos depois, empurrei meu próprio coração para debaixo da cama. Tomei um banho demorado e fui para a rua sem sentir nada, sem peso, sem dor, sem angústia. Perambulei, achando o máximo não me comover com bebês lindos nem com cachorrinhos fofos. Até que escutei: "Ei, o seu cachecol caiu!". Era um menino moreno com uma cara conhecida. "Você não é a Camila?", ele perguntou com olhos fixos em mim.Queria dizer que sim, que era a Camila e que, nossa, "você não acredita no que me aconteceu nesta madrugada..." "Ah, eu me lembro de você, você não é o amigo do Cláudio", foi tudo o que consegui dizer.

Sem explicação, acabamos almoçando e, para a minha surpresa não me senti nervosa ou com necessidade de agradá-lo. Muito pelo contrário. O almoço seguiu normal e tranquilo, tanto que resolvemos passear pelo bairro. Eu estava adorando aquilo: gostar sabendo que não chegaria a amar. Afinal, como é que se ama sem um coração? Ele contou coisas interessantes da sua vida, eu contei sobre a minha. Resolvi convidá-lo para minha casa e, por que não, abrir o jogo sobre a noite bizarra. Caso ele sumisse por me achar uma doida, eu não sofreria, pois não tinha mesmo um coração.


Não via  hora de contar para alguém como foi maluco ver meu próprio coração saindo pela boca. Mal entramos, levei-o para meu quarto. Ajoelhei em frente a cama e puxei sua mão para que ele ajoelhasse também. Ele obedeceu desconfiado.

"Preciso te mostrar uma coisa..." Levantei o lençol e fiz um sinal com a cabeça para que ele olhasse o que havia ali em baixo. "Não tem nada aqui, Camila", ele disse. Quando eu mesma olhei e não vi nada, sentei no chão, desconcertada.

Não sabia ao certo o que dizer. Será que meu coração agora teria fugido? Será que eu nunca mais o teria de volta? Vendo meu desespero, ele me abraçou forte. Só o que restava era abraçá-lo de volta. "Você está muito nervosa, consigo ouvir seu coração daqui!", ele disse. Arregalei os olhos, me livrei do abraço e, com as duas mãos no peito, senti: tum-tum, tum-tum. Meu coração acelerado! Nunca entendi o que aconteceu realmente, mas estamos juntos há três anos. Eu, o menino, e o coração, que, agora, sem a menor dúvida é muito feliz. 

*O texto original foi escrito por Camila Fremder e publicado na Revista Glamour de Jun/12 e foi considerado como um conteúdo divertido e interessante a ser compartilhado.
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14 comentários:

  1. nossa que texto mais lindo, adorei

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  2. Que lindo texto, já ouvi histórias parecidas, como que, exatamente no momento em que as pessoas desistiram do amor, foi quando elas o encontraram de verdade. Belíssimo texto, muito inspirador.
    Big Beijo
    Me visita?
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  3. Que lindo, adorei muito lindinho o texto haha
    um beijo
    BLOGBy Jeeh Sena

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  4. Adorei, muito fofo o texto.

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  5. nossa que texto lindo, super me identifiquei com essa cronica

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  6. Ai que texto lindo e bastante reflexivo também.

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    Beijos

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  7. Vi o seu post "O Google Friend Conect vai acabar?",e gostaria de estar reproduzindo no meu blog o texto traduzido do comunicado do blogger que você publicou no seu post.
    Teria algum problema?

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    Beijos

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  8. que delícia de crônica. adorei ♥


    Beijinhos
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  9. Belíssimo texto! Muitos parabéns!
    beijinhos
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  10. Que legal Demara!
    Achei bacana mesmo dividir este texto. Ele é bem rico!
    Estes textos sobre "o coração" eu acho sempre interessante, pq acaba batendo de um modo especial em cada um, né?

    Beijo!
    Andréia Campos
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  11. Muito boa essa crônica Demara a leitura flui que é uma beleza!
    Beijos ♥

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  12. Muito bacana essa crônica!
    Bjs da Su!
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  13. Que linda essa crônica! As vezes um coração pode realmente ser muito pesado. Tenha um dia abençoado, beijos!

    Blog Paisagem de Janela
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